Uma decisão liminar concedida pela Justiça Federal em São Paulo determinou na semana passada que os que os planos de saúde no estado devem cobrir integralmente o tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A ação foi movida pelo Ministério Público Federal (MPF) e estabelece que os planos sejam proibidos de fixar um número limite para consultas e tratamentos, cabendo exclusivamente aos profissionais de saúde determinar quantos atendimentos são necessários para cada indivíduo com autismo.

De acordo com o G1: “Segundo o juiz, o acompanhamento profissional especializado de pacientes com autismo desde os primeiros meses de vida é essencial para o futuro dessas pessoas e, portanto, a limitação do tratamento e do número de consultas feita pelos planos de saúde em São Paulo representa danos a elas”.

Essa decisão atinge apenas o estado de São Paulo e é liminar, então ainda segue na Justiça, mas já significa um avanço na garantia de um tratamento acessível. De acordo com o advogado Luis Filipe Quemelli Bussular, no Espírito Santo, para que as crianças tenham acesso as terapias recomendadas através dos planos de saúde, é necessário que as famílias entrem com ações individuais na Justiça.

O advogado explica que decisões como essa já foram tomadas em outros estados brasileiros e que agora esse tipo de ação precisa se espalhar pelo país, para que as famílias já tenham o direito de ter todos os tratamentos e terapias recomendadas cobertos pelos planos de saúde.

“O próprio STJ já definiu que essa limitação é irregular. Agora cabe aos Ministérios Públicos e Defensorias Públicas entrarem com essas ações coletivas, para que todos tenham acesso aos efeitos dessa decisão”, completa o advogado.

A decisão de São Paulo tem carater liminar e a ação segue tramitando na Justiça. Nossa torcida é para que o tratamento efetivo e baseado em evidências seja cada vez mais acessível, para todos!

Nós falamos muito por aqui sobre a importância de um tratamento de qualidade, baseado em evidências científicas, para o desenvolvimento de crianças e adolescentes com TEA. Mas quando recebem o diagnóstico, muitas famílias ficam perdidas na busca por esse tratamento e, com a proliferação de tratamentos sem nenhum tipo de base científica e promessas miraculosas na internet, muitas vezes é difícil identificar um tratamento realmente eficaz.

Nós, aqui na Casulo Comportamento e Saúde, sabemos que o único tratamento com evidências científicas para o TEA é a Análise Aplicada do Comportamento, mais conhecida como Terapia ABA. Por isso, entrevistamos especialistas na área para compreender como verificar a qualidade de um serviço.

Para a Dra. Liliane Rocha, DBH, BCBA, QBA, é necessário se atentar para três pontos iniciais na hora de buscar profissionais em ABA: uma formação do profissional adequada, um treinamento em ABA feito por profissionais também qualificados para isso e experiência naquela função que ele está executando.

A analista do comportamento explica que, muitas vezes, profissionais recém-formados e que não tiveram experiência suficiente assumem funções como a de supervisor nessa equipe, e pela falta de experiência, podem acabar prejudicando o tratamento.

A Dra. Ana Arantes, BCBA, QBA, também destaca o papel da formação profissional de toda a equipe que vai atuar naquele tratamento, e sugere que os pais façam muita pesquisa, recebam as indicações e peçam os currículos dos profissionais antes de fazer uma escolha.

“ABA se faz em equipe, e essa equipe tem que ter uma supervisora de ABA com um currículo sólido e experiência, tem que ter uma coordenadora com especialização na área, tem que ter treinamento constante e atualização”, explica.

Certificação

A Dra. Ana Arantes também sugere que os pais fiquem atentos a certificação de ao menos parte dessa equipe. As certificações são oferecidas por organizações nacionais e internacionais de Análise do Comportamento.

Os profissionais são submetidos a provas, análise de currículo e outras etapas, que avaliam se sua formação e experiência atende aos parâmetros mínimos para exercício da profissão de analista do comportamento.

Como não há hoje no Brasil nenhuma legislação que regulamente a profissão de Analista do Comportamento, as certificações são importantes para que quem procura um serviço em ABA, possa ter a garantia de que aquele profissional cumpriu os requisitos mínimos estabelecidos por organizações reconhecidas.

“A certificação garante que essa profissional tem a formação academia, a formação teórico-técnica suficiente para prestar o serviço em ABA, ela garante que essa pessoa passou por um período mínimo de supervisão com um profissional adequado, e ela garante que essas profissionais estejam sempre atualizadas na área”, explica Ana.

Dra. Liliane Rocha explica que a certificação por si só não garante um profissional de qualidade, mas garante que a pessoa atende aos padrões estabelecida por aquela comunidade para realizar aquele serviço: “Ela vai garantir que você tem o treinamento básico, passou por um treinamento de supervisão e tem as condições mínimas para oferecer um serviço padrão”.

O advogado Luis Filipe Quemelli Bussular explica que, do ponto de vista jurídico, a certificação trás segurança para as famílias e garante que aqueles profissionais estão aptos para exercer sua função.

“Independente de obrigatoriedade, a certificação é a confirmação de que o profissional prestador do serviço passou por uma criteriosa avaliação de qualificação e desempenho que o atestou apto para prestação de serviço com excelência”, completa o advogado.

O mês de abril é reconhecido internacionalmente como o Mês da Conscientização do Autismo. O objetivo desse período é dar visibilidade ao TEA, discutir práticas e legislações que garantam tratamento efetivo universal.

E por isso, é fundamental falarmos sobre a inclusão social. Ou seja, o conjunto de práticas e ações que combatem toda e qualquer forma de exclusão da vida em sociedade, motivadas por diferenças sociais e preconceitos dos mais diversos.

Muitas vezes, seja por desinformação ou preconceito, pessoas com TEA e suas famílias são continuamente excluídas de momentos de interação social, como confraternizações na escola, festas de família, celebrações, viagens etc.

Ainda existe o senso comum de que pessoas com autismo são antissociais, não gostam de estar próximos de outras pessoas e não sentem o isolamento. Mas isso não é verdade, as pessoas com TEA são diversas e, ainda que tenham algumas dificuldades na interação social, devem sim fazer parte da comunidade e se relacionarem com seus pares.

Promover a inclusão é uma tarefa diária e para praticá-la não é necessário ser profissional de saúde ou familiar. É no dia a dia que criamos oportunidades para que todas as pessoas, independentemente das suas diferenças, possam se sentir parte de uma comunidade e exercer seus direitos.

Por isso, separamos uma série de dicas dos nosso profissionais. Vamos praticar a inclusão?

Se você vai convidar a família de uma criança ou adolescente com TEA para uma confraternização:

• Pergunte se a criança/adolescente tem alguma restrição alimentar e esteja atento;

•Promova a socialização das crianças/adolescentes neurotípicas, ensinando que existe várias formas de ser e se comportar;

•Os pais sempre sabem o tempo de tolerância de seus filhos, caso eles decidam ir embora, respeitem a decisão e substituam frases de “já vão?” por “compreendemos, teremos mais oportunidades!”

•Se a criança estiver apresentando comportamentos disruptivos, chame o responsável imediatamente e evite dar opiniões ou conversar com a criança nesse momento. Ofereça um lugar seguro e tranquilo para que possam se dirigir.

•Caso a criança/adolescente tenha questões sensoriais auditivas, é importante verificar volumes de som, para que seja agradável a todos;

Se você tem um vizinho, conhecido ou quer garantir um ambiente mais agradável para todos:

•Evitar sons/músicas muito altas;

•Fogos de artifício também não são legais;

•Evitar comentários sobre a condição da criança. Substitua “Que pena que ele não fala ainda” por “Você pode me explicar mais sobre o atraso na fala?”

•Ofereça ajuda aos pais caso necessário, caso recusem, não insista;

•Ao encontrar uma criança apresentando comportamentos disruptivos (birra, choro), chame o responsável, se eles já estiverem presentes, não seja uma plateia, continue seu caminho sem interferir.

Na física, espectro pode se referir a um conjunto de raios coloridos que são resultado da decomposição da luz, como o arco-íris. Mas de forma geral, espectro é um conjunto de elementos que formam uma totalidade.

No autismo, o espectro se refere a ampla variedade de habilidades e dificuldades que juntas caracterizam o TEA. O autismo não é único e nem estático, e as pessoas com autismo também são diversas, particulares, e aprendem e se desenvolvem todos os dias. Falar do espectro do autismo é falar que todos os indivíduos são diferentes e essas diferenças não devem ser tratadas como uma doença, um problema ou limitação.

As maneiras pelas quais as pessoas com autismo aprendem, pensam e resolvem problemas podem variar muito, e da mesma forma que algumas delas vão ser altamente funcionais em um aspecto da vida, outras podem precisar de mais ajuda em outra área.

E é apenas com um diagnóstico precoce e um tratamento ético e baseado em evidências científicas que essas potencialidades e limitações podem ser exploradas, com respeito as individualidades de cada um.

 

Veja mais: O que é o Autismo

Durante o Mês de Conscientização do Autismo muito tem se falado sobre a neurodiversidade. Mas você sabe a origem e significado desse termo?

A neurodiversidade é se refere a ideia de que diferentes configurações cerebrais – como as dos indivíduos atípicos – não são uma doença a ser tratada ou curada, mas são diferenças que devem ser respeitadas como todas as outras.

Esse termo foi criado pela socióloga australiana e portadora da síndrome de Asperger Judy Singer, em 1999. Assim, o autismo, TDAH e outras expressões da neurodiversidade são diferenças neurológicas e as pessoas neurodiversas devem ser respeitadas em suas individualidades.

As maneiras pelas quais as pessoas com autismo aprendem, se comunicam e agem são múltiplas e as terapias e intervenções devem ser realizadas levando em consideração essas individualidades, sempre buscando promover mais qualidade de vida para a pessoa.

Na neurodiversidade, o conjunto de dificuldades e habilidades próprios de um individuo atípico não são algo a ser combatido por princípio. Os comportamentos devem ser avaliados por profissionais qualificados, e as intervenções devem ser feitas com a intenção de ampliar a gama de habilidades da pessoa, promover independência e interação social, e não para “normalizar”, “curar” ou para que alguém “deixe de ser autista”.

Algumas pessoas com TEA podem precisar de apoio significativo em suas vidas diárias, enquanto outras podem precisar de menos apoio e, em alguns casos, viver de forma totalmente independente. É por isso que um apoio individualizado e multidisciplinar é tão importante.

Com a ajuda de profissionais qualificados e orientados por práticas baseadas em evidências científicas, o indivíduo com TEA e seus familiares podem aprender as ferramentas corretas para lidar com as dificuldades, explorar as potencialidades e viver de forma mais plena.

Inserir novas rotinas de atividades diárias pode ser algo desafiador aos pais de qualquer criança. No caso das crianças dentro do espectro, em que a ideia de rotina muitas vezes precisa ser trabalhada com mais atenção, essa dificuldade pode ser ainda maior.

Por isso, seguem sete dicas de como tornar mais fácil e confortável a escovação de dente para a sua criança.

1- Use uma escova de dentes que seja do tamanho certo para a boca de sua criança.
Isso vale para todas as crianças, afinal a eficiência da escovação vai ser influenciada também pelo tamanho das escovas dentais. No caso de crianças autistas essa escolha é muito mais relevante. Afinal, queremos que a criança se sinta o mais confortável possível ao fazer a higiene bucal. Isso facilitará que a atividade seja incorporada na rotina da criança.

2- Use um timer para mostrar à criança quanto tempo será suficiente para parar a escovação.
Ter uma noção de quanto tempo durará essa atividade facilitará a inserção da escovação de dentes na rotina diária.

3- Crie um material bem visual para mostrar cada passo da escovação dos dentes. Você pode pontuar com algum tipo de sinal também visual a cada passo bem feito da escovação.
Com o passo a passo a criança entenderá melhor todos os processos de escovação. Além disso, o método divide uma grande tarefa em várias “pequenas tarefas”, o que ajuda no engajamento da criança na atividade.

4- Mostre à criança como você escova os próprios dentes.
Tendo você como exemplo, ela terá uma melhor noção de como realizar a escovação da maneira correta.

5- Pratique aos poucos, cada passo. Comece encostando a escova de dentes nos lábios da criança ou suavemente nos dentes. A partir disso, comece a escovação aos poucos.
Lembre-se que a resistência à escovação geralmente passa por uma hipersensibilidade. O toque da escova, a leve ardência da pasta de dente, a sensação da espuma na boca… tudo isso pode criar sensações estranhas e desconfortáveis para as crianças autistas. Fazer com que esses estímulos sejam criados aos poucos facilitará a realização da tarefa.

6- Ajude a criança a escolher o sabor da pasta de dente que ela gosta.
Além de fazer a criança se sentir pertencente ao “ritual” da escovação dos dentes, isso também pode ajudar com a questão da sensibilidade dita anteriormente. As pastas de dentes voltadas para adultos podem ser muito fortes para crianças, especialmente aquelas dentro do espectro. Em compensação, encontrar um sabor que a criança acha agradável com certeza tornará a atividade mais confortável.

7- A escovação dos dentes não precisa ser feita no banheiro.
Se a criança se sente melhor escovando os dentes no sofá da sala, então por que não abrir essa possibilidade a ela? Neste primeiro momento, o objetivo é inserir na rotina diária a tarefa de escovar os dentes de forma correta.

Os níveis sanguíneos de proteínas associadas ao gene PTEN ligado ao autismo podem influenciar o curso do TEA, de acordo com um novo estudo publicado nos Estados Unidos. Os testes que medem essas moléculas também podem ajudar os médicos a diagnosticar autismo e outras condições neurológicas, e mapear suas trajetórias, dizem os pesquisadores.

De acordo com o investigador principal Thomas Frazier, professor de psicologia da John Carroll University em University Heights, Ohio, a descoberta permite que pesquisadores sejam capazes de fazer previsões clínicas úteis sobre os resultados que podem ajudar a adaptar intervenções mais cedo e ajudar os pacientes e familiares a planejar o que é necessário.

O gene PTEN codifica uma proteína que suprime tumores e, também, influencia as conexões entre os neurônios. Mutações no PTEN estão ligadas não apenas a tumores benignos e vários tipos de câncer, mas também ao autismo e à macrocefalia, ou a uma cabeça invulgarmente grande.

Muito permanece desconhecido, no entanto, sobre porque as mutações PTEN podem afetar pessoas com e sem autismo de forma diferente. Por exemplo, as mutações PTEN são frequentemente associadas a função mental prejudicada em pessoas com TEA, mas não tão frequentemente em pessoas sem autismo, cujas características podem variar amplamente.

No novo estudo, Frazier e seus colegas examinaram como as mutações afetam os níveis sanguíneos não apenas da proteína PTEN, mas também das proteínas com as quais ela interage.

Ligações moleculares

A equipe avaliou os níveis sanguíneos de várias proteínas – bem como quociente de inteligência (QI) e outros fatores relacionados à função mental – em 25 participantes autistas e 16 não autistas com mutações PTEN e macrocefalia, todos com cerca de 9 anos de idade em média. Os pesquisadores também examinaram 20 participantes, com cerca de 14 anos em média, com autismo, macrocefalia e nenhuma mutação PTEN.

Os níveis de proteína PTEN refletem dezenas de funções mentais, descobriram os cientistas. Por exemplo, embora os participantes com mutações PTEN normalmente tivessem os níveis mais baixos da proteína PTEN, aqueles com níveis elevados em todos os três grupos tendiam a ter QIs, memória de trabalho, habilidades de linguagem e outras medidas de habilidades cognitivas mais baixas.

Os participantes com níveis elevados de PTEN podem ter versões abundantes, mas anormais da proteína, sugerem Frazier e seus colegas.

Fonte: Spectrum News. Confira clicando aqui o texto completo em Inglês.

No último fim de semana, cinco Board Certified Behavior Analysts (BCBA) — Liliane Rocha, Ana Arantes, Valeria Parejo, Juliana Gama Dadalto e Amanda Bueno –, que trabalham com o público brasileiro, debateram as várias formas que a Terapia ABA se apresentam no Brasil em um vídeo muito esclarecedor e essencial para todos os profissionais inseridos nessa área de atuação.

No debate, foram levantadas questões éticas preocupantes e as más concepções sobre o uso do ABA em território nacional.

Confira o vídeo no Youtube clicando aqui!

 

Todo ano o site Autism Speaks faz uma compilação de estudos científicos que foram destaque para a área do Autismo e escolhe quais os dez mais importantes artigos do ano.

Com o objetivo de contribuir para a divulgação de materiais científicos de qualidade, traduzimos e trouxemos para você o resumo de cada um dos artigos escolhidos.

(Os estudos não estão organizados em ordem de importância).

Avanços na triagem, diagnóstico e intervenções no Autismo: 

1- A Multisite Randomized Controlled Trial Comparing the Effects of Intervention Intensity and Intervention Style on Outcomes for Young Children With Autism. 
2- Effectiveness of the Extension for Community Health Outcomes Model as Applied to Primary Care for Autism: A Partial Stepped-Wedge Randomized Clinical Trial. 
3- Cognitive behavioral treatments for anxiety in children with autism spectrum disorder: A randomized clinical trial.

Esses três estudos foram selecionados como exemplos de avanços na ciência de intervenção no autismo. De acordo com os membros do comitê Comnie Kasari, Ph.D., professora de psiquiatria na David Geffen School of Medicine da UCLA , e Stelios Georgiades , Ph.D., professor associado de psiquiatria e neurociências comportamentais na McMaster University.

No primeiro artigo, crianças com TEA foram incluídos num estudo que comparou dosagem (horas por semana) e ensino abordagem (Modelo Denver Early Start – ESDM). Os resultados do estudo mostraram que crianças tiveram o mesmo nível de performance independentemente da dosagem ou abordagem de ensino e que as características da criança também não predizem os resultados.

No segundo artigo, crianças em idade escolar com TEA e ansiedade foram incluídas em um estudo que testou se a adaptação da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para enfrentar os desafios da comunicação social no TEA era melhor do que a TCC padrão (e o tratamento usual) na redução dos sintomas de ansiedade. Os resultados do estudo mostraram que a TCC adaptada para crianças com TEA levou a uma maior redução da ansiedade do que a TCC padrão (e o tratamento usual).

Já no terceiro estudo, a tecnologia de teleconferência foi usada para orientar uma ampla gama de profissionais de cuidados primários nos esforços para melhorar sua prática clínica, conhecimento e autoeficácia em relação à triagem do autismo e gerenciamento de comorbidades.

Os resultados do estudo não mostraram mudanças mensuráveis na prática clínica; a análise secundária mostrou melhora no conhecimento clínico e na confiança em cuidar de pacientes com autismo nas práticas de atenção primária.

Os resultados desses estudos oferecem aprendizados importantes que podem orientar o futuro da ciência da intervenção no autismo:
1) Os estudos que não produzem efeitos de intervenção positivos ou significativos (estudos nulos) são tão importantes quanto aqueles que o fazem;
2) Embora as intervenções educacionais que usam a tecnologia pareçam promissoras e práticas, elas não garantem a melhoria da prática clínica;
3) Uma abordagem modular cuidadosamente conduzida para modelos adaptados de intervenções existentes pode render mais informações sobre os ingredientes ativos das intervenções.

Avanços na descoberta e abordagem das disparidades de saúde:

4-  Timing of the diagnosis of autism in African American children. Pediatrics

Este estudo examinou o maior repositório conhecido de informações diagnósticas e fenotípicas em crianças afro-americanas (AA) com TEA (do Autism Genetics Resource Exchance (AGRE). Os autores descrevem um atraso inaceitável no diagnóstico de TEA e um acentuado (duplo) aumento na associação com deficiência intelectual comórbida em crianças AA em relação a crianças brancas não hispânicas.

5. Sex differences in scores on standardized measures of autism symptoms: a multisite integrative data analysis.
Este estudo reuniu a maior amostra de meninas com autismo para examinar as diferenças em como seus sintomas de autismo afetaram os resultados nos instrumentos padronizados usados para diagnosticar o autismo, não encontrando diferenças significativas com base no sexo. No entanto, os autores apontam que as pessoas que não recebem um diagnóstico de autismo são inerentemente não incluídas na análise, sugerindo que pesquisas futuras devem abordar as diferenças de sexo entre crianças ou adultos que não recebem um diagnóstico de Autismo.

6- Disparities in Service Use Among Children With Autism: A Systematic Review.
Usando dados do Autism Speaks ATN-AIR-P, os pesquisadores descobriram que grupos de minorias raciais e étnicas e famílias de baixa renda enfrentam barreiras significativas para obter os serviços necessários, cuidados intensivos, serviços especializados, serviços educacionais e serviços comunitários. Infelizmente, os autores também não encontraram estudos que examinassem a eficácia de diferentes intervenções para lidar com essas barreiras, um próximo passo crítico na redução das disparidades de saúde para pessoas com autismo.

Avanços na abordagem dos resultados para adultos com autismo    
7- Trajectories in Symptoms of Autism and Cognitive Ability in Autism From Childhood to Adult Life: Findings From a Longitudinal Epidemiological Cohort.
Neste primeiro estudo longitudinal de base populacional do autismo para examinar as trajetórias da infância à vida adulta, os autores relatam um aumento no QI médio, sem melhora nos sintomas autistas, sugestivo de desenvolvimento cognitivo contínuo durante o período adolescente / adulto inicial. Segundo os autores, esta nova descoberta fornece uma nova consideração importante para os tratamentos direcionados do autismo durante a adolescência e sugere um novo caminho de pesquisa voltado para a compreensão da plasticidade cerebral potencial, além daquela observada em indivíduos com desenvolvimento típico, na segunda década de vida.

8. Defining Positive Outcomes in More and Less Cognitively Able Autistic Adults. Autism Research 
As descobertas do estudo contribuem para o conhecimento de profissionais e famílias que ajudam a planejar a transição para a vida adulta de adolescentes com autismo. Os pesquisadores descobriram vários fatores importantes – incluindo habilidades de vida diária, menos problemas de saúde mental, demografia familiar e medidas subjetivas de felicidade – que impactam resultados positivos para pessoas autistas sem deficiência cognitiva, dando aos provedores e famílias mais orientações sobre como ajustar o planejamento de transição para cada pessoa.

Avanços na compreensão da genética e biologia do autismo    

9. Large-Scale Exome Sequencing Study Implicates Both Developmental and Functional Changes in the Neurobiology of Autism. 

Este trabalho há muito aguardado de Satterstrom, Kosmicki e Wang descreve um esforço inovador para identificar genes que são interrompidos por variantes raras em pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA)

Para o estudo, um grande consórcio internacional sequenciou o exoma, contendo a sequência codificadora completa de quase todos os genes, de quase 12.000 pessoas com autismo, bem como muitos de seus pais e uma população de controle. Eles identificaram 102 genes que contribuem para o risco de TEA, com 53 deles mais fortemente associados ao TEA do que ao atraso do neurodesenvolvimento.

Os 102 genes que implicados no TEA incluem genes que estão envolvidos na regulação de outros genes, bem como genes envolvidos na comunicação entre as células cerebrais.

“Isso nos dá uma noção muito mais clara de onde concentrar os esforços de pesquisa para compreender o desenvolvimento do cérebro e desenvolver tratamentos potenciais para alguns indivíduos com ASD”, disse o Dr. Veenstra-VanderWeele. “Também oferece mais evidências de que o sequenciamento do exoma deve ser considerado um teste clínico para todas as pessoas com TEA.”

10.  Genome-wide detection of tandem DNA repeats that are expanded in autism.

O artigo feito por pesquisadores do Hospital for Sick Children (SickKids) relatou novas mudanças genéticas e genes específicos ligados ao autismo em um estudo usando o banco de dados do genoma completo MSSNG da Autism Speaks.

Com uma nova abordagem de computação de dados, o Dr. Ryan Yuen, Ph.D., foi capaz de pesquisar rapidamente expansões repetidas em tandem no genoma de pessoas com autismo, descobrindo que essas mudanças provavelmente contribuíram para o desenvolvimento do autismo – e em várias novas áreas do genoma que não estavam previamente associadas ao autismo.

Expansões repetidas em tandem são seções de DNA que se duplicam uma ao lado da outra, em sequência, muitas vezes, da mesma forma que uma dobra em um pedaço de papel quando fotocopiada se transforma em múltiplas rugas. Quanto maior o número de repetições dessa ruga de DNA, maiores são as chances de a pessoa desenvolver uma doença genética.

Este tipo de análise de big data só é possível com grandes bancos de dados de informações genéticas, como as mais de 11.000 sequências do genoma inteiro de pessoas com autismo e suas famílias no banco de dados MSSNG, mas mais importante, a abordagem que o MSSNG empreendeu, sequenciamento do genoma completo – procurando em todo o DNA – foi fundamental para encontrar essas repetições em áreas não estudadas anteriormente.

Já falamos anteriormente sobre o autismo entre as meninas, mas acreditamos que precisamos voltar ao tema.

Isso porque um novo trabalho publicado na PubMed sugere que as meninas provavelmente só receberão um diagnóstico de autismo apenas se tiverem deficiências sociais significativas – corroborando a ideia de que as ferramentas de diagnóstico não são bem usadas para perceber algumas meninas com TEA.

As meninas com diagnóstico de autismo pontuaram quatro pontos a mais no SCQ (Social Communication Questionnaire, teste utilizado para identificar o autismo) em média do que os meninos com a doença, sugerindo que apenas meninas com características graves recebem o diagnóstico. Especificamente, as meninas tendem a ter mais problemas com a comunicação social, como brincar em grupos ou sorrir.

O apontamento é especificamente preocupante, pois ignora uma grande quantidade de meninas que são suavemente afetadas pelo autismo. Sem o diagnóstico correto, é mais provável que essas meninas nunca cheguem a desenvolver seus respectivos potenciais como seria através do tratamento adequado, alimentando o sofrimento causado pelo estigma dado a comportamentos que fujam do padrão socialmente aceito.

As descobertas também ressaltam a existência de diferenças de sexo na comunicação social entre crianças neurotípicas: as meninas podem precisar de melhores habilidades sociais para cumprir o padrão de comportamento “normal”.

“O estudo dá uma contribuição em termos de mostrar essas diferenças populacionais em larga escala nos marcadores do espectro do autismo”, diz Rene Jamison, professor clínico associado do Centro Médico da Universidade de Kansas em Kansas City, que não esteve envolvido no estudo. “Isso ilustra a necessidade de considerar grupos de referência específicos para cada sexo”.

As diferenças na comunicação social podem estar parcialmente relacionadas aos desafios que as meninas enfrentam quando se aproximam da adolescência, diz Marisela Huerta, professora assistente de psicologia em psiquiatria clínica na Weill Cornell Medicine em Nova York, que não esteve envolvida no estudo. “Pode chegar um ponto em que a expectativa do comportamento social das meninas em geral seja diferente do que é para os meninos”, diz Huerta.

“A interpretação que estou buscando instintivamente é que a avaliação diagnóstica real é tendenciosa contra o fenótipo do autismo feminino”, diz William Mandy, professor sênior de psicologia clínica na University College London, que não esteve envolvido no estudo. Os resultados foram publicados a 30 de março no Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology.

A equipe de Carpenter planeja examinar as diferenças sexuais nas características do autismo entre crianças mais novas, usando várias ferramentas de rastreamento e diagnóstico.
Fonte: Spectrum News